Por: Claudio Silva Rufino
O suicídio de Getulio Vargas completa 64 anos e ainda se constitui em notícia pois lembra uma personalidade ímpar de nossa história republicana e a maneira como ele enfrentava e vencia politicamente seus adversários.
No entanto, aproveitando o momento atual no qual fortes lideranças se veem afastadas da vida pública por escândalos financeiros e se avizinha uma eleição presidencial, prefiro lembrar a saída de Vargas, em 1945, nove antes do ato extremo no qual tira a própria vida, deixa grande perplexidade e grande discussões e dúvidas entre seus seguidores, adversários, amigos e inimigos.
Getulio foi apeado do Poder em 1945 por determinação dos militares insistentemente assediados pela oposição capitalista. Havia uma data no final do ano para eleição presidencial. Havia o movimento queremista, Getulio ficava e os brasileiros elegeriam uma Constituinte. Haviam candidatos à Presidência da República, dois militares, tanto na área governista como na oposição, além do candidato do Partido Comunista. Enfim, o tabuleiro do xadrez sucessório estava indefinido. Movimentos populares apoiavam a permanência de Vargas. Outros abominavam os quinze anos nos quais permanecera, como Presidente provisório de 1930-1934, eleito indiretamente de 1934 até 1937 e o Estado Novo, bastante minimizado pela abertura política, mas ainda vigente.
Getúlio recebe, como sempre, estoicamente a notícia de sua deposição. Consultado, declara intenção de ser conduzido a São Borja, onde nascera e de onde saiu para uma intensa e meteórica vida pública: deputado estadual e federal, Ministro da Fazenda, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, atualmente Governador, enfim Chefe de uma Revolução e Presidente da República.
Assim, os chefes militares estavam reunidos para decidir a sorte de Vargas. Vê-se ele conduzido ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, colocado num avião da FAB em direção a São Paulo, com alguns assessores. O avião sobrevoa São Paulo, os militares discutem, mandam seguir para Curitiba, continuam a discussão, o avião segue para Florianópolis. Desta cidade segue o avião para Porto Alegre, quando, enfim, o Comandante vem avisar ter recebido instruções para levar Getulio para São Borja. Este, a cada sobrevoo nas capitais sulinas, ascende um charuto e brinca com a fumaça subindo e descendo dentro da cabine. Não conseguiram os mais radicais impor sua vontade de banir Vargas para o Uruguai, Argentina ou alhures.
O Presidente deposto, no cargo por 15 anos, tinha apenas um apartamento no Rio de Janeiro, onde permaneceu sua esposa, Darcy Sarmanho Vargas e a herança ficada por morte de seu pai, proprietário de vastas extensões de terras em São Borja e arredores.
Deixou no Palácio Guanabara todos os presentes recebidos na sua gestão, indo morar de favor na casa de seu irmão em São Borja, Fazenda Santos Reis, ao qual tocara a sede principal das terras ficadas por morte de seus pais.
Edificou uma casa simples na Fazenda do Itu, quinhão herdado de seu pai, tendo antes disto até residido em Uruguaiana na Fazenda de seu amigo Batista Luzardo.
Assim passou a viver o homem responsável pelos destinos do Brasil nos últimos quinze anos. Todos os jornais, revistas e rádios estavam em poder de seus adversários. Era criticado, caluniado e até vilipendiado dia após dia. Mas a memória popular não esqueceu o seu líder.
Nada conseguiram provar contra sua honradez e lisura, nada absolutamente nada.
Getulio, somente com seu prestígio pessoal, advindo de sua postura, decide o pleito Presidencial, determinando o voto em Eurico Gaspar Dutra, candidato do PSD. O Brigadeiro Eduardo Gomes, ponteando em pesquisas, amarga sua primeira derrota, a seguinte foi para o próprio Vargas, quatro anos após, como candidato da coligação PTB-PSP.
Getúlio deixa o Poder quase como entrou. Em 1930 estava vestido com uniforme de Ten.Cel do Exército Nacional, pois parte do Rio Grande do Sul como líder de uma revolução armada.
Em 1945 deixa o poder como um estadista, tranquilo e sereno. Sem processos, sem intervenção do Poder Judiciário, com bagagem pessoal devidamente fiscalizada pelos militares presentes no Palácio Guanabara, onde residia com sua família, para acompanhar a retirada.
O movimento queremista brotou da população. Espontâneo. As lideranças políticas varguistas e os sindicalistas, em ato contínuo, apoiaram esta importante parcela da população brasileira, inclusive composta por grande massa de analfabetos, sem condições até de votar. Tinham um único órgão de imprensa, o jornal O Radical, no Rio de Janeiro. A UDN e demais forças contrárias a Vargas contavam com um poderio jornalístico e radiofônico invejável.
Com o desenrolar da campanha política sucessória, eleição de um Congresso, Vargas funda o PTB. Elege o partido a terceira maior bancada, calcada principalmente na votação dele próprio, eleito Senador por São Paulo e Rio Grande do Sul. Deputado Federal por mais sete unidades da Federação. Os trabalhistas, inclusive, logram eleger o Prefeito de Ijui, sob a liderança de um jovem com 22 anos, Benno Orlando Burmann.
Vargas foi o líder consagrado nas urnas em 1949 e levado ao ato extremo do suicídio em 1954.
Getulio por seu comportamento, sua lisura, seu carisma deixa saudades até neste 2018. O Brasil bem merecia um outro Getulio, obviamente com todas as suas qualidades e virtudes. Ele pensava o Brasil. Viveu pelo Brasil. Foi, sem dúvida, o maior estadista brasileiro no século XX.