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Os desafios da quarentena com as crianças em casa

8 de junho de 2020
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As rotinas das famílias mudaram completamente no mundo inteiro em consequência da pandemia do novo coronavírus. Em que momento da história recente vocês se lembram de ver creches e escolas fechadas? Qual foi a última vez que ficaram mais de 60 dias convivendo durante as 24 horas do dia com os filhos? O que uma convivência tão diferente, durante este período de isolamento, pode mudar na relação entre pais e filhos? Como está o cotidiano das famílias durante a pandemia

O despertador toca e não é mais necessário correr para arrumar as crianças e levar para o colégio. Em meados de março, as aulas das redes pública e privada foram suspensas em Porto Alegre e, no mesmo período, a paralisação ocorreu em outras cidades brasileiras. Desde então, mães, pais e filhos estão se reinventando dentro de suas casas. “No início, acho que com o baque de a coisa ser mais radical, foi aquele susto, tinha aquele medo, a gente simplesmente parou, não conseguia pensar em nada, fechou escola, marido parou o trabalho, eu fiquei muito confusa com a questão profissional porque tinha recomendação de adiar consultas eletivas, a maioria das minha são, mas tinha também os recém-nascidos e eu não sabia o que fazer”, comentou a pediatra Antônia Pardo Chagas, sobre os primeiros momentos de isolamento.

Contando com o suporte do marido em casa, ela seguiu realizando atendimentos de recém-nascidos, saindo de casa duas vezes por semana para ir ao consultório. O marido, Geraldo Carpes, que é empresário, estava trabalhando de casa e foi “segurando as pontas” com as crianças. “Ele trabalhava quando eu estava em casa, as crianças estavam amando o fato de estarem em casa com os pais, fazíamos comida junto. No início vi que foi algo diferente sabe, mas o problema foi com o tempo passando, vendo que a rotina não vai voltar tão cedo, as crianças cansadas de ficar em casa”, disse.

Antônia, Geraldo e a filha Emília usam chamadas de vídeo. Foto: Mauro Schaefer

Quando o calendário pesou e Antônia viu que já havia completado 40 dias do isolamento, período durante o qual a Emília, de 5 anos, e o Bruno, de 2, ficaram totalmente dentro de casa, eles começaram a ficar estressados e o trabalho começou a aumentar um pouco. Antônia foi aumentando os turnos e Geraldo foi “abraçando” as correrias. “Mas acho que o que me dói mais é ver as crianças só em casa e aquela coisa de mesclar trabalho, cozinha e limpar com o momento de atenção pra eles. Acho que isso tá sendo o mais difícil”, desabafou.

Sobre a rotina, Antônia destacou que a questão tem sido tema de discussões entre ela e Geraldo. “A necessidade de ter uma rotina, isso facilitaria muito, mas a gente não tem conseguido na prática. Atendo no consultório, mas em casa tem muito trabalho também, respondo mensagens dos pais, atendo ligações, estou sem secretária, tenho que fazer toda a burocracia e muitas vezes, no desespero de dar atenção para eles, acabo misturando as coisas, sento com eles com a agenda do consultório para arrumar, respondo pacientes enquanto estou no quarto brincando.”

Rotina não está sob controle

Mesmo com todo o esforço do casal para manter a rotina, a situação parece não estar exatamente sob controle. A escola dos pequenos tem mandado atividades, o que, segundo Antônia, ajuda na realização de tarefas com eles. “No meu ideal eu queria um passo a passo, queria que todo dia tivesse café da manhã, atividades da escola, tudo em uma ordem, mas acaba que, com o cansaço, com o atropelo do dia a dia, a gente faz o que dá. Se as crianças acordam mais tarde, o que vamos fazer? Deixamos olhar mais TV agora, aproveitamos para trabalhar, e vamos indo conforme o humor deles, é realmente isso que vai guiando a tentativa de rotina. Se eles estão quietinhos, brincando, não sou eu que vou chamar porque na organização estava prevista uma atividade da escola”, afirmou.

Com relação ao temperamento dos filhos, Antônia contou que eles estão amando ficar em casa. A primeira vez que eles saíram do apartamento, depois de 40 dias, quando foram até a portaria do prédio para buscar um presente de Páscoa da escola, logo pediram para voltar para a casa. “Os meus não choram, o Bruno não reclama de nada, a Emília tem falado que quer ir na avó, que mora no Interior, quer visitar a prima, mas só se eu pergunto, nunca parte deles”, contou.

A convivência tem sido desafiadora, mas também tem feito Antônia refletir sobre a participação na vida dos filhos. “A gente se dá conta de que praticamente não faz parte da rotina da criação dos nossos filhos. Antes eles iam às 8h para a escola e pegávamos eles às 18h30min, até a hora de dormir não sobrava muito tempo, fazíamos algum lanche juntos, porque eles já vinham ‘jantados’, uma atividade legal, depois já começava a rotina do sono, com banho, para dormir. E no final de semana também era pouco tempo.”

Uma coisa, entretanto, surpreendeu Antônia. Ela achava que teria a necessidade de propor atividades para os pequenos, mas, segundo ela, eles não exigem muito. “Criança tem que brincar livre, eles têm brincado mais com as coisas deles. Acho que nesse ponto está sendo legal, estamos descobrindo mais a nossa casa, descobrindo cada sujeira que não se via antes”, brincou, lembrando que agora eles estão muito mais grudados. Para amenizar a saudade da escola, Antônia mostra vídeos dos colegas e das professoras, principalmente para Emília, que está há quatro anos na mesma turma e sente falta da convivência.

“O Bruno ainda não tem aquela paixão pela escola, não consegui fazer ele parar na frente de um vídeo da professora, um ou outro ele viu de historinha, mas de ter saudade acho que não”, diferenciou. O que a família mais tem feito em conjunto é cozinhar. Desde o começo do isolamento, as crianças têm ido bastante para a cozinha com os pais. Além disso, eles plantaram sementes e estão cuidando todos os dias das plantas, vendo o crescimento. “Estou sempre tentando propor desenhos, fazer colagens, aprender as letras. No atropelo da rotina, a gente acaba fazendo muito menos junto com eles do que gostaria, mas a gente acaba envolvendo eles nas atividades da casa”, disse.

Antônia também reforçou que o período de isolamento está cansativo, pois se não está trabalhando, está arrumando, limpando ou cozinhando. Por isso, unir o tempo com os filhos e as tarefas da casa têm sido importante. As visitas ao avós e aos amigos da família não aconteceram mais, os encontros agora são realizados através de videochamada. “Saio de duas a três vezes por semana, para ir ao consultório, não estou totalmente isolada. Já pensamos em deixar as crianças no Interior, com os avós, mas tenho medo de levar a doença porque não estou totalmente isolada”, contou Antônia, lembrando que a saudade aumentou ainda mais durante o isolamento.

Sobre as explicações acerca do novo coronavírus, Antônia comentou que, com o filho menor, Bruno, as histórias foram totalmente lúdicas. Eles precisaram falar uma vez sobre o vírus e ele nem pergunta por que está em casa. A maior, Emília, faz comentários do tipo “quando acabar o coronavírus eu vou visitar minha vó”. “No início, a gente explicou que tinha uma doença, que passava de uma pessoa para a outra, de forma lúdica mesmo, para eles entenderem que um vírus era um bicho pequeninho, que por causa deles temos que fazer o isolamento.”

Uso de telas de aniversário na quarentena

Uma das principais mudanças na rotina da família foi o uso de telas, como a televisão. “A maior diferença foi que, no meio da pandemia, foi aniversário da Emília e eu cedi. Minha mãe queria dar uma TV para colocar no quarto deles e eu sempre resistia, mas agora eles têm. Tento botar vídeos de dança para a gente dançar na frente da TV, coloco filmes e depois pergunto sobre a história, depois a gente desliga.” Sobre o aniversário da Emília, em 4 de maio, ter acontecido na quarentena, Antônia lembrou que foi divertido.

“Fiz toda a decoração pra ela, fizemos cachorro-quente, brigadeiro e a gente fez uma videochamada com os amiguinhos. Ela, na frente do computador deu um grito faceira, ‘veio todo mundo para o meu aniversário’, foi a coisa mais linda. A dinda dela mandou presente, outros amigos também, chegou presente em casa. Foi legal, ela gostou, mas ainda fala que quando voltar pra escola vai ter a festa com os coleguinhas. Ela me cobra que eu preciso pensar na lembrancinha da festa da escola, diz que eu tenho que comprar presente para os colegas que fizeram aniversário na quarentena”, brincou.

O caçula Bruno também deve comemorar o aniversário, em 3 de julho, no formato isolamento. “Vai ser igual”, afirmou. Além das alterações da rotina em casa, Antônia, como pediatra, reforçou que está com a angústia das famílias que atende, principalmente pelas crianças. “Não dá para julgar uma família que trabalha o dia inteiro, em frente ao computador ou na rua, por deixar a criança em frente à televisão. Ninguém se preocupou com essas famílias no momento que ficaram sem escola, simplesmente mantiveram alguns trabalhos, agora estão reabrindo coisas, sem escola, e não tem que reabrir escola mesmo. Então eu fico angustiada com a saúde dessas crianças porque elas estão sem estímulo, sem interação social, sem exemplos bons”, lamentou.

De modo geral, as crianças estão tendo os pais estressados, cozinhando o que dá, limpando o que dá, vivendo como dá. “Estou, como pediatra, muito preocupada com as crianças, com a saúde física e mental, o desenvolvimento saudável. E isso falando só nos pequenos, mas tem toda a questão escolar dos maiores, em frente a uma tela com ensino à distância de repente, em isolamento, com possível transtorno de humor para quem tem tendência, ansiedade, erros alimentares. Muitas questões de saúde podem ser desencadeadas com toda essa situação, o que vai muito além do coronavírus”, registrou.

Convivência com adolescentes

A enfermeira Adriane Besckow e o marido, Luciano Caldasso, engenheiro químico, têm dois filhos, o Artur, de 14 anos, e o Lucas, de 11. Ela divide a convivência no período de isolamento em duas etapas. Logo no início, Adriane contou que os filhos se perderam de toda a rotina porque achavam que estavam de férias. Como enfermeira, ela segue trabalhando diariamente no turno da manhã, mas fica à tarde com os filhos. “Eles sentiram mesmo quando meu marido começou a trabalharem casa”, destacou. No começo da quarentena, a escola mandava tarefas das disciplinas, eles faziam e depois ficavam com o resto do dia livre para brincar.

“Nessa primeira parte, estavam meio soltos, até a alimentação mudou, eles queriam comer toda hora. Agora estamos mais tranquilos, a escola começou a ter horários de aula mesmo. Eles têm aula a manhã inteira e parece que perceberam que não é um período de férias, começaram a se organizar”, contou. Uma das principais diferenças foi a suspensão das atividades que faziam no turno inverno da escola, pois praticavam vôlei em um clube e ficavam por lá com os amigos.

Adriane Besckow, Luciano Caldasso e os filhos Artur e Lucas Besckow Caldasso. Foto: Ricardo Giusti

Com a retomada das aulas, mesmo que à distância, em um turno completo, a rotina já começou a mudar. Aos poucos, as aulas de inglês no turno da tarde, com professor particular, também puderam ser retomadas e a organização na casa começou a entrar em um novo normal, diferente, mas ainda assim mais adaptado do que no começo do isolamento. “A rotina está começando a ficar mais próxima da realidade que tinham, agora estamos passando por um período mais tranquilo.”

A maior dificuldade, segundo Adriane, ainda é controlar o uso de telas, principalmente com o filho mais velho, Artur, de 14 anos. Ela comentou que os dois parecem tranquilos, apesar das restrições. Conseguem jogar videogame com os amigos à distância e se comunicam através da Internet, mas ela sente que a maior saudade deles, além das aulas presenciais, são as atividades extracurriculares como vôlei, tênis de mesa e passeios ao ar livre.

Com a nova convivência, também surgiram novos hábitos como o momento de assistir ao noticiário em família. Além disso, como Adriane trabalha em hospital, logo que ela chega em casa precisa passar por um ritual antes de finalmente abraçar os filhos, coisa que preocupava a todos no começo da pandemia. “Agora eles já sabem, quando eu chego, primeiro vou tomar um banho e depois a gente se abraça.” O uso das máscaras quando é necessário sair e a rotina de limpar os calçados quando chegam da rua também são novos hábitos da família. “Quando começamos a introduzir a rotina nova, os cuidados novos, eles começaram a perguntar e foram entendendo.” Para amenizar a saudade que os filhos sentem dos avós, os telefonemas se tornaram mais constantes.

Legados da quarentena

Uma das coisas que Adriane quer preservar após o período de isolamento é a divisão de tarefas na casa. “Conseguimos colocar os guris nas atividades da casa”, comentou. No horário da janta, segundo ela, o Artur gosta de cozinhar, então todos fazem uma atividade, escolhem o cardápio em conjunto, botam a mão na massa, literalmente, tentando distanciá-los nem que seja momentaneamente das telas. “Não podemos deixar. Por eles, ficam dentro do quarto o dia inteiro grudados no celular ou computador, é uma luta para achar o atrativo”, desabafou.

Na divisão da família, agora a louça do almoço é intercalada, cada dia um dos guris lava. Com o lixo, a mesma coisa, cada um tem seu dia de tirar. Quando chegam do supermercado, eles já sabem que precisam participar da limpeza das compras, cada um vai pegando um item e limpando ou um limpa e outro organiza. “Isso foi bem natural, foram percebendo que, como não tinham a nossa ajudante, teriam que fazer. A questão da limpeza das compras foi bem tranquilo, quando chegamos eles estão curiosos pra saber o que vem do mercado e a louça nós explicamos que precisavam ajudar. Eles não reclamam mais, mas precisamos lembrar. De repente vira um hábito, tomara.”

Como Adriane trabalha no Hospital da Criança Conceição, contou que estava muito apreensiva no começo da pandemia, pois não sabia o quanto as crianças seriam atingidas. Ela contou que, no hospital onde trabalha, houve uma divisão de atendimento para os casos respiratórios e, na parte em que ela atende, não são recebidos pacientes com sintomas. “Mesmo assim, no início, a neura de sair do hospital era grande. Eu trazia as roupas dentro de um saco plástico”, relatou.

Apesar disso, Adriane comentou que com a flexibilização das atividades, o medo voltou. “Não sabemos como vai ser o retorno da escola, a gurizada não tem esses cuidados, eles não estão enxergando a doença como a gente, dá uma insegurança”, desabafou, reforçando que é preciso conversar muito com os filhos, para que eles estejam bem preparados quando as atividades começarem a “normalizar”.

Ainda sobre o retorno às aulas, Adriane disse que ela e o marido conversam com os filhos e explicam que, provavelmente, será necessário usar máscara na escola. “Não sei se eles entendem que vai mudar muita coisa na volta para o colégio”, afirmou. O isolamento com os dois filhos, conforme Adriane, é bom, mas também estressante. “A gente acaba tendo que controlar tudo o tempo todo, é cansativo, mas tudo tem o seu lado bom.” A maior sortuda da casa foi a Pipa, uma cadelinha de dois anos, sem raça definida, que agora brinca o dia inteiro com os “irmãos”. “Sorte que eu ainda tenho um espaço aberto em casa, ela consegue brincar. Ela tá adorando porque eles estão dando mais bola pra ela”, contou.

Isolamento potencializou sobrecarga das mães

O período de isolamento também potencializou a sobrecarga de muitas mulheres que precisam dar conta do cuidado com os filhos, do trabalho e das tarefas de casa. “Muitas mães estão nesta situação, pois perderam suas redes de apoio. Conciliar filhos, trabalho, afazeres domésticos e suas vidas particulares sem o apoio da escola, amigos e familiares é complicadíssimo. Não apenas para as mães que criam os filhos sozinhas. Muitas mulheres dividem a moradia com companheiros, mas o relacionamento é pautado por uma lógica machista e estão em sofrimento pela sobrecarga. A saúde mental das crianças depende do cuidado com saúde mental das mães. As escolas podem ajudar escutando as mães e fortalecendo as redes de apoio, mesmo virtuais”, afirmou a psicóloga e consultora Bianca Stock.

Conforme Bianca, o período de isolamento é o momento de priorizar a qualidade dos vínculos familiares. “Nada é mais importante do que isso, nem mesmo as atividades escolares. Aproveitar para se conectar mais com os filhos, melhorar as habilidades de comunicação, divertirem-se juntos nas pequenas coisas do cotidiano e criar boas memórias deste tempo tão adverso.” Com relação às atividades escolares, Bianca reforçou que o fundamental é garantir a continuidade do vínculo com os professores e colegas.

“Não há conteúdo mais importante do que este: lidarmos coletivamente e solidariamente com uma pandemia mundial. As escolas estão construindo alternativas no processo, e, evidentemente, errando para acertar. Nem tudo o que a escola propuser será factível e interessante para a aprendizagem de todas as crianças. Portanto, o diálogo franco entre famílias e escolas precisa ocorrer”, reiterou. Conforme Bianca, é preciso cuidar e fomentar o desejo pela aprendizagem, pela curiosidade das crianças e adolescentes. Escutar mais o que eles têm a dizer e o que estão aprendendo com a quarentena, quais habilidades e competências estão sendo desenvolvidas. “Uma angústia estéril por dar conta de conteúdos predeterminados é absolutamente prejudicial para todos, pois fragiliza o fator humano, já tão vulnerável neste contexto”, enfatizou.

Nascido às vésperas da quarentena

No dia 8 de março de 2020, nasceu Henrique Nuñez Diefenbach, em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Os pais gaúchos, o executivo de contas, Tiago Bayer Diefenbach e a bióloga Nailê Karine Nuñez, 32 anos, se prepararam durante os nove meses da gestação para o momento do parto. Em janeiro, meses antes da chegada do filho, Tiago já desconfiava da vinda do novo coronavírus, por acompanhar as notícias que chegavam da China. Quando Nailê completou 40 semanas de gravidez, entrou em trabalho de parto. “Foi um momento único nas nossas vidas, ainda conseguimos ir ao hospital, levar doula, fotógrafa. Na semana seguinte, já foi tudo proibido, tivemos um pouco de sorte, digamos assim.” Tiago lembrou que Balneário Camboriú inclusive foi fechada uma semana após o nascimento de Henrique.

Por conta do isolamento, os avós paternos ainda não conhecem o neto. Além do casal, somente a avó materna teve contato com Henrique, pois estava na casa deles antes do nascimento e precisou ficar 20 dias por lá por conta do fechamento da cidade. “Foram momentos bem complicados, e ainda continua sendo, porque nesses três meses minha esposa e o Henrique saíram de casa acho que menos de cinco vezes, somente para as consultas do pediatra e uma outra voltinha que a gente se obrigou a dar, de carro.”

Tiago, Nailê e o bebê Henrique, nascido às vésperas da quarentena. Foto: Ricardo Giusti

Além de toda a novidade do isolamento, há também a do primeiro filho. “É todo um processo de aprendizado, estamos tendo que aprender tudo e basicamente sozinhos, sem a ajuda da família, tirando os 20 primeiros dias com a minha sogra. É um período em que o bebê demanda, mas ainda não interage. Agora que começou a interagir.” Tiago trabalha em uma multinacional norte-americana e, por conta disso, já trabalhava em home office mesmo antes da pandemia, mas claro que, por conta do isolamento, ele não tem saído para visitar clientes, o que faria normalmente. Nailê trabalhava em uma universidade da região e deixou o emprego no sexto mês da gestação, com o objetivo de se dedicar integralmente a este novo momento.

Todos os planejamentos do casal foram se desfazendo por conta da pandemia. “Estava meio programado, minha sogra ficaria um tempo aqui, como aconteceu, mas quando ela fosse embora, meus pais viriam, já tinham até marcado férias, mas achei melhor eles não viajarem, até pela exposição deles e do Henrique. Meus pais já estão quase chegando aos 60 anos, achamos melhor não virem”, afirmou, lembrando que, na época, a decisão foi acertada justamente porque as entradas da cidade foram fechadas. Apesar disso, o casal está tentando reformular os planos. “Estamos programando de eles virem pra cá logo mais, temos que tomar todos os cuidados. Estamos nos cuidando, queremos nos encontrar, vamos planejar para eles ficarem um período aqui, para que a gente não pegue estrada ainda com o bebê.”

“É um momento delicado psicologicamente e emocionalmente para todo mundo, minha esposa acabou de ganhar o filho, estamos lidando com essa situação, tento estar o máximo junto dela, a gente conversa, fico um pouco com o bebê.” Apesar de o pequeno exigir muito da mãe, por estar em fase de aleitamento materno exclusivo, Tiago contou que faz tudo o que pode. “Fico com ele no colo, troco a fralda de madrugada e faço todas as questões de casa. Chega a hora de dormir, ela vai para o quarto e eu dou uma geral na casa.” O principal ponto de angústia para Tiago, sobre a situação que envolve o novo coronavírus, é não ter perspectiva de quando o isolamento vai terminar. “Vamos deixar de nos preocupar mesmo só quando surgir uma vacina, mas sabemos que isso vai demorar.”

As alternativas para evitar sair de casa vão ao encontro da tecnologia. O casal aproveita muitas vezes para fazer as compras do mercado por meio de aplicativos. Quando é preciso ir a um mercado por algum motivo, Tiago chega em casa e imediatamente faz a higiene das compras. “Estamos tendo que viver tudo isso de uma certa forma redobrada, estamos tentando evitar ao máximo expor o Henrique.”

Outro suporte da tecnologia está nas vacinas que o pequeno Henrique precisa tomar nessa fase. As primeiras doses foram aplicadas ainda no hospital, após o nascimento, mas agora o casal optou por contratar serviços de uma clínica particular da vacinação. “A enfermeira veio até a nossa casa. Acabamos pagando um pouco mais, mas para evitar a exposição valeu a pena. Vamos continuar fazendo dessa forma nos próximos meses”.

Além de fazer as compras no mercado ou farmácia, quando é preciso sair, Tiago também concentra a realização das atividades da casa para que a esposa consiga se dedicar ao filho. “Estou tentando me virar nos 30 para colaborar da melhor forma e aliviar o lado dela. Na prática estou vendo que realmente o fato de ser mãe acaba pesando muito, tem toda a questão de privação de sono. Eu acordo de madrugada pra trocar fralda, quando ela não precisa amamentar. Se eu não fizer a parte de tentar colaborar nas horas que eu posso, realmente não tem como dar conta”, afirmou.

Fonte: Correio do Povo

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