Uma torcida apaixonada, um time que tem no apelido – xavante – a tribo indígena guerreira – um estádio (Bento Freitas) palco de jogos inesquecíveis. O Brasil de Pelotas é um dos patrimônios do futebol gaúcho e brasileiro. O clube, com mais de 100 anos combateu e venceu agruras (trágico acidente com o plantel em 2009) e desfrutou de grandes momentos (campeão gaúcho de 1919, terceiro lugar no Brasileirão de 1985, vice da Série D, acesso à Série B em 2016, entre outros). Porém, em 2018 tem um desafio hercúleo: sair da zona de rebaixamento da Série B e voltar a fazer brilhar os olhos dos seus torcedores, fazer voltar o orgulho de vestir o manto rubro-negro do Grêmio Esportivo Brasil.
2018 tinha tudo para ser um ano incrível para o Brasil de Pelotas. Na abertura da temporada, o Xavante passou com folga a primeira fase do Gauchão. Foram seis vitórias, três empates e apenas duas derrotas – Grêmio e Novo Hamburgo. Melhor campanha. Direito de jogar no Bento Freitas até a final. Nas quartas de final contra o São Luiz, empate em Ijuí e vitória em casa. Na semifinal, sufoco. Dois empates em 1 a 1 com o São José e vaga na decisão garantida nos pênaltis, para delírio da massa xavante.
Duro golpe: duas goleadas
Na decisão, a equipe do técnico Clemer sofreu duas impiedosas goleadas para o Grêmio tricampeão da Libertadores: 4 a 0 na Arena, num jogo marcado pela polêmica expulsão de Sciola no final do primeiro tempo. O jogador saltou com o joelho nas costas de Luan e acabou recebendo o vermelho. No Bento Freitas, outro jogador expulso: Leandro Leite no começo da segunda etapa. Desta forma, com espaço, o tricolor gaúcho foi mortal nos contra-ataques e fez 3 a 0: Brasil vice-campeão com gosto amargo. Os 11 que entraram em campo foram Marcelo Pitol; Ednei, Leandro Camilo, Heverton e Bruno Collaço (Rafael); Leandro Leite, Mossoró (Van Basty) e Valdemir; Calyson, Alisson Farias e Lourency (Leo Bahia).
Segundo o jornalista Marcelo Prestes, da Rádio Universidade de Pelotas a campanha foi enganosa. “No mata-mata já não estava jogando bem. Passou no sufoco contra o São Luiz e não fez boa atuação contra o São José. Contra o Grêmio, era muita diferença e se deu um desconto”.
Pouco tempo para lamber as feridas
Cinco dias após a perda do título, a equipe entrava em campo para encarar o São Bento pela 1ª rodada da Série B. A partida foi movimentada, mas o clube gaúcho ficou no empate. O time xavante saiu na frente com Éder Sciola, depois de uma grande jogada de Alisson Farias. Marcelo Cordeiro deixou tudo igual. Estreia amarga.
O jornalista afirma que Clemer mudou demais em tão pouco tempo. “Ele colocou alguns reforços que chegaram, mas não foram suficientes”. O time entrou em campo com Marcelo Pitol; Valdemir, Rafael Vitor, Heverton, Artur; Leandro Leite, Sciola, Lourency; Alisson Farias e Michel. Foram cinco alterações do time que decidiu o campeonato num intervalo muito curto. Na segunda rodada, o Xavante lutou muito. E no finalzinho da partida arrancou o empate em 2 a 2 contra o Avaí em Florianópolis. Éder Sciola, aos 44 do segundo tempo, garantiu o pontinho na mala para Pelotas depois de cruzamento de Alisson Farias.
Torcedor fanático pelo Brasil, o advogado Rafael Etchalus, 29 anos, acredita que houve erro no planejamento para 2018. “A direção investiu em jogadores errados. O início do ano foi bom, mas não deu “liga”. Ele ainda destaca que deveria ter sido feito um investimento maior para a competição nacional. Para o jornalista da Rádio Universidade as alterações no elenco foram fatais para a derrocada no campeonato. “Os reforços não deram resultados. O único que deu algum, e não é titular absoluto, é o Caio, que veio do campeonato brasiliense. Ainda dispensou o melhor do time, o Alisson Farias. Houve um decréscimo de qualidade”.
Para Marcelo, Clemer mexeu demais no elenco e na formação tática. “Usava Leandro Camilo e Everton. Depois colocou Rafael Dutra que veio da Série D e este foi muito mal. Voltou o Leandro Camilo. O Everton perdeu espaço e ficou o Rafael Dumas. Perdeu o Arthur, que saiu. O Itaqui também caiu muito”.
A primeira derrota ocorreu longe de casa: 2 a 1 para o Paysandu em Belém do Pará. Num momento de “apagão”, Cassiano e Renato Augusto marcaram para os donos da casa num intervalo de quatro minutos. Lourency descontou para o Xavante. Ainda segundo o jornalista, o técnico Clemer seguia alterando atletas e esquema, o que, para ele, dificultou o Brasil de Pelotas de se encontrar no campeonato. No feriado de 1º de maio, após muito trabalho dentro de campo, o Brasil venceu o Figueirense por 1 a 0, gol de Wellinton Júnior cobrando pênalti.
Derrotas em sequência
Contra o Coritiba, a equipe de Pelotas não repetiu o mesmo desempenho e acabou derrotada por 1 a 0 num lance despretensioso em que Marcelo Pitol acabou mandando para dentro do gol no chute rasteiro de Yan Sasse. De volta ao Bento Freitas, o Xavante não conseguiu fazer o fator local e caiu diante do Sampaio Corrêa: 2 a 1. Com a derrota, a equipe do técnico Clemer ingressou no Z4. A equipe do Nordeste marcou em falhas defensivas do Brasil.
A queda de Clemer
Conforme o jornalista, foi após o jogo contra o Sampaio Corrêa que a curva virou contra o Brasil. Para ele, Clemer “perdeu a mão”, viu que não tinha mais de onde tirar do grupo. “Ali começou o fim da era Clemer. O Brasil teve toda a semana para trabalhar e perdeu em casa”.
Contra o Londrina, o time do Sul do Estado conseguiu, enfim, um bom resultado e teve uma atuação convincente: 3 a 0. Éder Sciola, com dois gols e Lourency marcaram. A vitória trouxe alívio. Torcedores e jogadores acreditavam que seria o ponto de virada da equipe no campeonato. Porém, não foi o que ocorreu. Nas três partidas seguintes – 9 pontos em disputa – o Brasil de Pelotas somou apenas dois: empate com o CRB e Oeste fora de casa e a derrota catastrófica – 2 a 0 para a Ponte Preta dentro do Bento Freitas. Com os resultados os gaúchos voltaram a flertar com o Z4. Murilo e Paulinho marcaram os gols do triunfo paulista em solo gaúcho. Na 11ª rodada, 15 de junho, o Brasil de Pelotas levou 2 a 0 do Fortaleza, líder da Série B. O resultado recolocou o Xavante no Z4 e marcou o fim de Clemer como técnico.
Vinicius Amaral da Silva relatou ainda que a saída do Alisson Farias fez o time perder rendimento e criticou a saída do atacante Caio. “Não entendo o motivo dele (Caio) não ser titular, é o único que tenta algo. O Itaqui também não dá para entender o que ocorreu”. Receoso, acredita que se algo não mudar a tendência é o rebaixamento para a Série C em 2019.
Foto: Jonathan Silva / GEB / Divulgação / CP
A chegada de Gilmar Dal Pozzo
O Brasil de Pelotas anunciou em meados de junho a chegada de Gilmar Dal Pozzo para substituir Clemer demitido após duas derrotas e dois empates seguidos. Os dois resultados negativos foram contra o líder Fortaleza e contra a Ponte Preta. O problema é que os empates foram contra adversários diretos na luta para fugir da série C. Contra o Oeste, 0 a 0, e CRB, 1 a 1, fora de casa.
Vitória em Santa Catarina
Gilmar Dal Pozzo acompanhou o jogo contra o Criciúma nas arquibancadas. Deve, na ocasião, ter gostado do que viu: vitória de 1 a 0 contra o adversário direto para fugir da Série C deu uma sobrevida ao time gaúcho: Leandro Camilo, de cabeça, anotou o gol da partida. Na ocasião, com os três pontos, o Xavante subiu ao 14º lugar.
Estreia com derrota
O treinador estreou contra o Atlético Goianiense, fora de casa. Gilmar viu o time ser derrotado por 2 a 1. Alisson e Itaqui, contra, fizeram os gols do time goiano. Rafael Dumas descontou. Foi um balde de água fria na reação xavante na Série B. A derrota colocou o time na 17ª posição, dentro do Z4, de novo. O segundo jogo de Gilmar Dal Pozzo foi contra o CSA no Bento Freitas. Mais uma derrota: 2 a 0 numa noite gelada e chuvosa em Pelotas. Daniel Costa e Rafinha liquidaram o jogo na primeira etapa. O Brasil esteve nervoso, errando passes quase o jogo todo. Ao final, vaias e equipe cada vez mais firme no Z4.
Desta forma, a situação do Brasil de Pelotas extrapolou os limites do campo. Se espalhou pela bicentenária cidade do Sul do Estado. O clima não anda nada doce para os jogadores. A comerciante e contadora Alessandra Bandeira da Rosa, 43 anos sócia do clube e xavante desde a infância avalia a situação como péssima.
Para Rudinei Camilo Mendes, 60 anos, que se intitula xavante desde o nascimento o time está sem pegada.“Quando pensamos que vai embalar perde de novo. Os jogadores parecem cansados. O problema não é o treinador. Quando que íamos perder em casa como estamos perdendo”, questiona. Para ele há jogadores que não estão se doando ao máximo para sair do clube. “Não temos vestiário”, enfatiza.
O cuidador de carros Gustavo Mendes, 29 anos, acompanha o time pela televisão. “Mesmo não indo ao estádio sei que a situação é complicada e que tem que melhorar senão vamos cair de novo e não podemos voltar para a Série C, pois é muito complicado subir de novo”, observa.
