A presença do Maremano tem sido importante na tentativa de estancar a queda no rebanho gaúcho de ovinos, que tem se acentuado nas últimas décadas. Conforme o Censo Agropecuário 2017 do IBGE, o efetivo atual é de 2,6 milhões de cabeças, o que representou uma redução de 23,8% em relação a 2006. Em 1970, o Rio Grande do Sul chegou a contar com 12,1 milhões de animais. Segundo o assessor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edegar Franco, o uso dos cachorros permitiu uma melhora nos índices de sobrevivência de cordeiros. Isso tornou-se possível porque o cão fornece proteção às ovelhas principalmente no momento da parição, quando elas – e as crias – encontram-se mais vulneráveis ao ataque dos predadores.
Com as terras mais férteis destinadas às lavouras de grãos, nos últimos anos coube à ovinocultura ocupar campos com topografia mais acidentada, onde cresceu a adoção do florestamento. “Isso torna o ambiente muito facilitado para o predador, que encontra ali áreas de refúgio. A dificuldade na busca de alimentos faz com que ele ataque alguns animais”, observa Franco. O maior exemplo é o município de Sant’Ana do Livramento, onde está localizado o maior rebanho ovino do país, e que é um dos locais que mais têm sofrido com a presença de javalis nos últimos anos.
Um dos precursores da criação de Maremanos no Brasil, o produtor Marcelo Grazziotin, de Vacaria, optou pela raça em razão da grande variabilidade de linhagens existentes no país, o que diminui o risco de acasalamentos consanguíneos. Antes disso, Grazziotin, que é criador de ovinos Ile de France, chegou a trabalhar com cães das raças Kuvasz e Komondor. Também pesou a favor do Maremano o fato de ele não ser um animal agressivo com os seres humanos. De início, as ovelhas ficaram reativas, inclusive porque o rebanho já havia sido alvo de ataques de pumas e de outros cachorros. Bastou uma semana, porém, para que o convívio entre as espécies se mostrasse harmônico – a tal ponto de os cães ficarem ao lado da ovelha no momento da parição. “Enquanto o cordeiro não levanta e não mama, o cachorro não sai dali”, descreve. O fato de o cão se alimentar da placenta contribui para evitar a presença de predadores como o carancho, que ataca os olhos dos recém-nascidos.
O assunto ganhou tanta repercussão que a Câmara Setorial da Ovinocultura recebeu recentemente a sugestão para que o Estado ofereça estes cães, de forma subsidiada, para pequenos produtores. “Um programa que fornecesse animais, de preferência castrados, iria ajudar muito nessa fixação do homem no campo”, observa Grazziotin.