As mudanças climáticas estão a caminho de transformar a vida na Terra como a conhecemos e, a menos que o aquecimento global seja drasticamente desacelerado, bilhões de pessoas e outras espécies chegarão a pontos em que não poderão mais se adaptar ao novo normal, de acordo com um grande relatório publicado nesta segunda-feira (28).
Os autores do relatório dizem que esses impactos estão acontecendo muito mais rápido e são mais disruptivos e generalizados do que os cientistas esperavam 20 anos atrás.
Os autores apontam enormes desigualdades na crise climática, constatando que aqueles que menos contribuem para o problema são os mais afetados, e alertam para impactos irreversíveis caso o mundo ultrapasse 1,5ºC de aquecimento global.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou o relatório de “um atlas do sofrimento humano e uma acusação condenatória de liderança climática fracassada”, e alertou que “atraso significa morte”.
“Os fatos são inegáveis. Essa abdicação da liderança é criminosa”, disse Guterres em comunicado. “Os maiores poluidores do mundo são culpados de incêndio criminoso em nossa única casa.”
Ele também disse que os “eventos atuais” mostraram que o mundo depende demais dos combustíveis fósseis, chamando-os de “um beco sem saída”, em uma aparente referência ao conflito na Ucrânia e à crise energética.
Aquecimento acima de 1,5ºC pode ter consequências irreversíveis
Os cientistas alertam há décadas que o aquecimento precisa ficar abaixo de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.
O relatório de segunda-feira, do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mostrou que se esse limite for violado, algumas mudanças serão irreversíveis por centenas – se não milhares – de anos. E algumas mudanças podem ser permanentes, mesmo que o planeta esfrie novamente.
O mundo já está 1,1ºC mais quente do que antes da industrialização, segundo a estimativa do IPCC, considerada conservadora. Estamos agora rapidamente em direção a 1,5ºC.
A cada evento extremo, os ecossistemas estão sendo empurrados mais para os chamados pontos de inflexão além dos quais mudanças irreversíveis podem acontecer, de acordo com o relatório.
Com um aquecimento de 2ºC, por exemplo, até 18% de todas as espécies terrestres estarão em alto risco de extinção, de acordo com o relatório. A 4ºC, 50% das espécies estão ameaçadas.
Embranquecimento de corais
“Claramente para os recifes de coral, devemos dizer que em muitos locais, eles já estão além dos pontos de inflexão. Eles estão em declínio.”
Ecossistemas altamente vulneráveis no Ártico, nas montanhas e nas costas estão em maior risco com essas mudanças, dizem os autores. A camada de gelo e o derretimento das geleiras causarão um aumento acelerado do nível do mar, irreversível por séculos.
Florestas , turfeiras e permafrost – locais onde os gases de efeito estufa são naturalmente armazenados – correm o risco de serem empurrados para uma situação em que estão emitindo esses gases na atmosfera, causando ainda mais aquecimento.
Estamos ficando sem maneiras de nos adaptar
“Adaptação” é encontrar maneiras de conviver com a mudança – como erguer muros para evitar o aumento do nível do mar ou implementar novos códigos de construção para garantir que as casas possam resistir a condições climáticas mais extremas.
Nossas opções de adaptação se tornarão ainda mais limitadas em 1,5ºC de aquecimento.
E embora o mundo natural tenha se adaptado às mudanças climáticas ao longo de milhões de anos, o ritmo do aquecimento global causado pelo homem está levando muitos dos sistemas mais críticos do planeta – como florestas tropicais, recifes de corais e o Ártico – à beira do precipício.
O clima mais extremo não afeta apenas os humanos, está causando a morte em massa de plantas e animais.
O crescimento e o desenvolvimento populacional, que não foram realizados com a adaptação de longo prazo em mente, também estão atraindo as pessoas para o caminho do perigo.
Cerca de 3,6 bilhões de pessoas vivem em lugares já altamente vulneráveis aos riscos climáticos, alguns dos quais aumentarão além da capacidade de adaptação quando o planeta atingir a marca de 1,5ºC.
Muitos dos recursos do mundo, principalmente as finanças internacionais, são destinados à redução das emissões de gases de efeito estufa, o que é conhecido como mitigação.
“Vimos que a grande maioria dos financiamentos climáticos vai para a mitigação e não para a adaptação”, disse Adelle Thomas, autora do relatório e cientista climática da Universidade das Bahamas.
“Então, embora a adaptação esteja ocorrendo, não há financiamento suficiente e não é uma alta prioridade, o que está levando a esses limites”.
Até 3 bilhões de pessoas experimentarão “escassez crônica de água”
Cerca de metade da população mundial sofre de grave escassez de água a cada ano, em parte devido a fatores relacionados ao clima, mostrou o relatório.
A água se tornará ainda mais escassa em temperaturas globais mais altas.
Com 2ºC de aquecimento – que os cientistas preveem que o planeta atingirá na metade do século – até três bilhões de pessoas em todo o mundo experimentarão “escassez crônica de água”, de acordo com o relatório. Isso aumenta para quatro bilhões de pessoas a 4ºC.
A escassez de água colocará uma enorme pressão na produção de alimentos e aumentará os já terríveis desafios de segurança alimentar do mundo.