SETEMBRO AMARELO SUICÍDIO E DEPRESSÃO: A pandemia cultural do século XXI – NoroesteOnline.com

SETEMBRO AMARELO SUICÍDIO E DEPRESSÃO: A pandemia cultural do século XXI

10 de setembro de 2020
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Por: Quesia Batista

Semana passada um amigo se suicidou. Já fazia alguns anos que ele batalhava contra a depressão.

Olhando sua página do Facebook, parecia uma pessoa feliz, realizada, que superou padrões de sua família de origem. Reinventou-se profissionalmente, saindo de uma profissão tradicional na qual não encontrava satisfação, para descobrir sentido no campo da sustentabilidade, da inovação, da transformação do mundo e do desenvolvimento pessoal.

Ele trouxe contribuições para a sociedade e para a vida de muitas pessoas. Inspirou muita gente a seguir seus corações, como podemos ver nos diversos relatos que aparecem agora nas mídias sociais após sua morte. Alguns deles demonstram surpresa nos depoimentos, por não saber o que ele estava passando e, assim, não conseguindo ajudar.

Penso que o suicídio é apenas um dos sintomas de uma sociedade doente. Como diz Viviane Mosé, enfrentamos um esgotamento civilizatório e humano: “vivemos uma exaustão ambiental em consequência de um modo predatório de lidar com os recursos naturais, vivemos uma exaustão econômica, em função das imensas desigualdades sociais, do desemprego. E, por fim, enfrentamos a exaustão humana, ou melhor a exaustão do modelo de ser humano que criamos, vivemos o ódio à vida, em forma de depressão, suicídio, terrorismo, feminicídio, racismo”.

E, apesar, do enorme avanço das medicações psiquiátricas, infelizmente isso não representa a melhora na qualidade de vida ou da saúde mental e emocional da sociedade. Sendo a depressão considerada o mal do século pela Organização Mundial da Saúde, com incidências altíssimas. Atualmente, Atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão e ela é considerada uma das doenças mais incapacitantes do mundo, sendo que anualmente mais de 800 mil  pessoas morrem por suicídio em decorrência da doença. Estima-se que no Brasil são 12 milhões de pessoas em depressão (uma a cada 17 pessoas, aproximadamente).

Parece que a solidão assola a todos: em números totais, a grande maioria dos suicídios ocorre em países de baixa e média renda, mas os países de alta renda têm as maiores taxas proporcionais de suicídio por número de habitantes. O suicídio é um problema de saúde pública e uma das principais causas de morte no mundo: a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio.

A sensação de falta de sentido, a desesperança e uma visão de futuro vazio, sem perspectivas, se tornam companheiras constantes. Mas esses são assuntos tabu, tratados com preconceito e ignorados pelas famílias e pela sociedade em geral. Pedir ajuda é sinônimo de fraqueza, principalmente para homens, numa sociedade patriarcal e machista. Aprendemos a sentir culpa por nossas tristezas e angústias. E assim, como uma bola de neve, o sofrimento aumenta. O suicídio parece então uma solução desesperada para acabar com a dor. E, no momento pandêmico em que vivemos, o isolamento social tende a exacerbar todos esses sentimentos. Fazendo que os atendimentos de Samu relacionados a suicídio tenham crescido no Brasil.

 

Conheço tantas pessoas incríveis, inteligentes, sensíveis, com tanto a contribuir no mundo e que estão em depressão, sentindo-se sozinhas e incompreendidas. Falta-lhes um senso de comunidade, de pertencimento, de sentido na vida e de esperança para si e para o mundo.

Vivemos numa sociedade que não favorece o desenvolvimento pleno de nossas potencialidades e que muitas vezes até nos impede de atendermos às nossas necessidades humanas universais.

Em relação ao atendimento de pacientes admitidos em Urgências e Emergências por tentativa de suicídio, depressão e pasmem, mas até os portadores de epilepsia, são na literatura apontados como vítimas da influência de estigmas relacionados ao suicídio no comportamento de profissionais da saúde com pessoas que possuem determinadas características estigmatizadas (Nebhinani, Nebhinani, Tamphasana, & Gaikwad, 2013). Em decorrência da estigmatização, pode haver negligência, hostilização, dentre outras características negativas no atendimento (Sarti, 2005; Vidal & Gontijo, 2013).

A palavra estigma pode ser definida como uma atribuição de estereótipos negativos que marcam o indivíduo, passando a direcionar comportamentos, podendo este ser marginalizado e excluído de situações sociais (Andrade, & Ronzani, 2014; Ronzani, & Furtado, 2010). Ademais, pode impactar a vida daquele ao qual é direcionado, trazendo depreciação em contextos sociais. No campo da saúde, gera comportamento diferenciado no atendimento direcionado aos pacientes estigmatizados, quando por exemplo, há negligência e não ocorre a formação de vínculo entre paciente e profissional. Segundo estudos, os pacientes que requererem atendimento após a tentativa de suicídio, são recebidos com hostilidade e rejeição por parte dos profissionais. (Nebhinani, Nebhinani, Tamphasana, & Gaikwad, 2013; OMS, 2012).

Os estigmas são formados a partir de normas sociais que variam de acordo com questões culturais, históricas e sociais, interferindo no nível de consequências direcionadas ao indivíduo estigmatizado (Ronzani & Furtado, 2010). Uma vez que possui influência direta na formação do estigma, o contexto social (imediato ou não) parece influenciar em sua manifestação. Logo, o entendimento de como o estigma se manifesta pode contribuir para o combate a sua existência e, consequentemente, sua interferência no atendimento em saúde. Indivíduos que tentam suicídio e são socorridos com vida dão entrada em unidades de saúde, geralmente em caráter de urgência ou emergência, por vezes permanecendo internados para estabilização e recuperação de possíveis lesões, traumas ou outros problemas causados pela tentativa. Todavia, é observado que profissionais de saúde percebem o comportamento suicida como algo, em certa medida, opcional ao indivíduo (Machin, 2009). Dessa forma, alguns deles podem equivocadamente adotar o discurso de que esses pacientes atrapalham o fluxo do hospital e, se isso se fizer necessário, poderão dar prioridade àqueles que supostamente valorizam a vida – pacientes que não tentaram tirar a própria vida –, o que implica um atendimento influenciado por estigmas (Avanci, Pedrão, & Júnior, 2005; Azevedo, 2012).

Ao analisar a condição atual de profissionais que trabalham em unidades de urgência e emergência no Brasil, percebe-se sobrecarga de trabalho e ritmo acelerado (Zanelatto & Pai, 2010). Somado a isso, espaço físico inadequado e falta de materiais para suporte necessário ao paciente caracterizam um cotidiano estressante para esses profissionais (Bertolote, Mello-Santos, & Botega, 2010). Tais profissionais vivem uma rotina de luta constante contra a morte e, consequentemente, em favor da vida e diminuição do sofrimento. Sendo assim, contextos em que o paciente dá entrada por tentar tirar a própria vida contrapõem esse princípio, o que possivelmente ajuda a explicar a dificuldade para lidar com esse tipo de situação (Machin, 2009).

Nesse cenário, investigar o que influencia esses profissionais na tomada de decisão em relação ao atendimento aos usuários do serviço de saúde parece plausível. Influenciados por estigmas que são dirigidos ao paciente suicida, acredita-se que esse tipo de paciente possa receber menor prioridade no atendimento prestado em urgências e emergências, ainda que protocolos de avaliação determinem critérios objetivos para a tomada de decisão a respeito da priorização do cuidado e suporte nesses ambientes (a exemplo da Classificação de Risco no Modelo de Manchester). Logo, os aspectos subjetivos em relação ao motivo pelo qual se dá entrada no serviço hospitalar podem exercer influência direta sobre a prioridade de assistência, especialmente quando se trata de um contexto de pressão por ações e decisões imediatas, tal como ocorre em setores de pronto-atendimento hospitalar.

 

Estou em luto não apenas pela morte do meu amigo, que mesmo, em luto por ele tive minha própria experiência de estigmatizacao por ser portadora de EPLEPSIA TÔNICO CLONICA GENERALIZADA a qual tem tornado meus dias difíceis por não ter controle sobre meu próprio cérebro, minha principal ferramenta de trabalho e corpo ocasionando crises convulsivas e conversivas. Trazendo-me a vivenciar esses estigmas de frente a uma profissional da saúde a qual se referiu a crise daquele momento como “querer chamar a atenção da plateia”, além de outras tantas situações, como simples olhares, demonstrações de crítica, medo de contágio ou, até mesmo, medo de outra ação depressiva.

Embora o suicídio não seja um crime, ao contrário do induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, que sim, configura-se como crime segundo o artigo 122 do Código Penal Brasileiro (1940), ainda hoje as vítimas de tentativa de suicídio sofrem com avaliações pejorativas e, por vezes, discriminatórias a respeito de seu comportamento (Kohlrausch, Abreu, & Soares, 2008).

Alguns estudos na literatura sugerem que profissionais da saúde não conseguem enxergar pacientes admitidos por tentativa de suicídio como pessoas que necessitam de ajuda, mas sim como aqueles que afrontam a vida por terem tentado contra ela (Avanci et al., 2005; Silva, Sougey, & Silva, 2015).

Isso ganha relevância particular quando a disponibilização do cuidado está em cenário de certa “concorrência” por vagas e atendimentos na urgência e emergência de hospitais públicos brasileiros, caracterizados por superlotação e falta de insumos para o cuidado adequado (O’Dwyer, Oliveira, & Seta, 2009).

Frente a esse cenário complexo e incitador de difíceis decisões, os profissionais de saúde podem – não necessariamente de modo consciente – serem influenciados a usar estratégias não prescritas em protocolos clínicos para lidar com essas adversidades, a exemplo da modificação não intencional dos critérios de priorização de quem deve ser atendido em primeiro ou segundo lugar.

Mas afinal, o que resta a nós, enquanto seres humanos repletos de sentimentos a ânsias? Ás vezes, a única coisa que precisamos é parar, tirar a vida do piloto automático e tornarmo-nos conscientes das nossas próprias escolhas. Pensar sobre o que estamos fazendo, sobre o que estamos comendo, sobre como estamos passando por uma situação ou somente revidando a tudo o que nos acontece. Entender que a coisa mais normal do mundo é dar errado, e às vezes, dará certo por acaso, por mérito, por sorte, por fé. Não sabemos. Só não podemos esperar dar certo, para ser feliz. Dê um tempo para você e para a sua vida, sua família e seus amigos. De um tempo para sorrir para a vida. E caso, o tempo esteja ruim, procure ajuda.

 

Serviço: o CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.

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