O açougue humano da rua do Arvoredo – NoroesteOnline.com

O açougue humano da rua do Arvoredo

23 de maio de 2026
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A então pacata capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul ee 1863 e 1864, foi palco de crimes lembrados até hoje e que na época, tiveram repercussões mundiais. Uma investigação policial que começou com o desaparecimento de dois comerciantes culminou na descoberta de uma série de assassinatos brutais na Rua do Arvoredo (atual Rua Coronel Fernando Machado). O caso, que mistura latrocínio, esquartejamento e a estarrecedora suspeita de canibalismo comercial, envolve o ex-inspetor de polícia José Ramos, sua companheira húngara Catarina Palse e o açougueiro alemão Carlos Claussner.

A Linha de Produção do Terror

Segundo as investigações, o modus operandi do trio era cirúrgico. José Ramos e Catarina Palse frequentavam a alta sociedade porto-alegrense, marcando presença em locais como o recém-inaugurado Theatro São Pedro. Ali, selecionavam as vítimas — preferencialmente imigrantes alemães, uma vez que Catarina não domina o idioma português.

Após a triagem, Catarina seduzia as vítimas e marcava encontros no Beco da Ópera (atual Rua Uruguai), atraindo-as para a residência do casal. No local, as vítimas eram roubadas e degoladas por Ramos.

O desfecho dos corpos, contudo, é o que mais estarrece as autoridades: as investigações apontam que as vítimas eram carneadas e sua carne era transformada em linguiças, vendidas posteriormente no açougue de Carlos Claussner, localizado na Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo). Claussner teria sugerido o método para sumir com as evidências, enquanto os ossos eram incinerados ou dissolvidos em ácido.

Vítimas Identificadas:
1. Carlos Claussner (Açougueiro e cúmplice)
2. Januário Martins Ramos da Silva (Comerciante português)
3. José Ignacio de Souza Ávila (Caixeiro-viajante)
+ Pelo menos outras 3 vítimas não identificadas formalmente.

Ganância e Queima de Arquivo

O pacto de silêncio do trio começou a ruir em agosto do ano passado, quando a onda de desaparecimentos pressionou as autoridades. Assustado com a atenção pública, o açougueiro Carlos Claussner manifestou o desejo de fugir para o Uruguai. Temendo perder o comparsa e o negócio, José Ramos assassinou o alemão e enterrou o corpo no quintal de casa, assumindo o estabelecimento e alegando que Claussner havia lhe vendido a propriedade.

A farsa ruiu definitivamente com o desaparecimento do comerciante português Januário Martins e de seu caixeiro, José Ignacio. Ambos haviam sido vistos pela última vez na casa de Ramos.

O Cão que Sabia Demais

Um detalhe crucial ajudou a polícia: o cachorro de estimação do caixeiro José Ignacio permaneceu dias em frente à residência de Ramos, latindo sem parar, como se esperasse pelo dono. O animal também acabou desaparecendo misteriosamente, mas o clamor chamou a atenção da vizinhança.

Ao revistar a casa na Rua do Arvoredo, a polícia encontrou um cenário dantesco:

  • Pertences pessoais das vítimas guardados como souvenires;

  • Pedaços do corpo de Carlos Claussner em decomposição no porão;

  • Os corpos mutilados de Januário e José Ignacio dentro do poço;

  • O cadáver do cachorro com o ventre rasgado, também jogado no poço.

Confissão e revolta popular

Presa pelas autoridades, Catarina Palse confessou os crimes e revelou o diário que serviu de ponto de partida para a elucidação dos assassinatos. A revelação de que a população de Porto Alegre vinha consumindo embutidos de carne humana gerou pânico generalizado e quase terminou em linchamento.

Em relatório oficial, o Presidente da Província, Dr. Esperidião Elói de Barros Pimentel, relatou que a sede da Secretaria de Polícia foi cercada por uma multidão enfurecida. O público exigia que os presos fossem entregues para “serem por suas mãos justiçados”, sendo necessária força policial para conter o tumulto, que resultou em manifestantes feridos após confrontos com pedras e garrafas.

Para evitar maiores constrangimentos políticos — já que Ramos atuava como seu informante de polícia —, o Dr. Dario Callado deu celeridade ao processo. José Ramos foi condenado por latrocínio à pena de morte por enforcamento, pena que posteriormente foi comutada para prisão perpétua. Ele permaneceu recluso negando os crimes até sua morte, em 1893, na Santa Casa de Misericórdia. Catarina Palse foi condenada a 13 anos de prisão como cúmplice, tendo sido libertada em 6 de maio de 1891.

Embora o processo oficial hoje repouse no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, o caso já se fixou no imaginário popular do Rio Grande do Sul. Historiadores modernos apontam que, devido ao desaparecimento de documentos da época e às falhas processuais, as provas definitivas sobre a fabricação das linguiças de carne humana foram inviabilizadas pelo tempo. O fato real, contudo, já caminha para se tornar a lenda urbana mais macabra da história porto-alegrense.

Fonte: Foto - Dominio público

Profissional do Futuro Unijuí

3 de julho de 2026
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