Chico Buarque é um dos artistas mais famosos do Brasil e é bastante improvável que, se caminhasse pela Rua da Praia, passasse incólume. Com mais de 50 anos de carreira, faz parte de um seleto grupo de músicos no país que até hoje lota shows por onde passa – e não foi diferente com sua última turnê em Porto Alegre. Pois bem, tomemos Chico como parâmetro. Como se esperava, a busca por ingressos para suas apresentações, em agosto no Auditório Araújo Viana, foi bastante disputada e, poucos dias depois, conseguir um lugar era tarefa das mais complicadas. Só não mais difícil do que, para o mesmo palco, assegurar um ingresso para a final do Campeonato Brasileiro de League of Legends, ou simplesmente CBLoL, como é mais conhecida a competição que escolheu a Capital como sede do seu jogo mais decisivo da temporada, programado para este sábado, dia 8. As entradas, bem, se esgotaram em apenas duas horas e isso que em julho, quando foram colocados à venda, sequer havia a definição de que os finalistas seriam o Flamengo e a KaBuM!.
Tamanha procura é apenas um dos aspectos mais visíveis do fenômeno que é tanto o LoL como os eSports em geral, como são chamados os esportes eletrônicos. Ainda que, em termos de reconhecimento do grande público, a coisa toda tenha cara de nicho, na prática, em termos esportivos, a modalidade vem crescendo em progressão geométrica e seu potencial de investimento é inegável. Não por acaso esteve incluída no programa oficial dos Jogos Asiáticos de 2018, na Indonésia, como esporte de demonstração, e já foi confirmado que, na competição de 2022, sua disputa vai valer medalhas. É o primeiro passo até ser considerada esporte olímpico, o que especialistas acreditam que não leve mais do que dez anos. “É um mercado novo, que está se profissionalizando e atraindo investimentos aos poucos. Os números estão crescendo e é possível dizer a partir de estudos que os valores chegarão ao patamar dos esportes tradicionais em pouco tempo”, prevê André Sica, advogado especialista em direito esportivo e sócio do escritório CSMV Advogados.
Aqui talvez seja necessária uma ressalva, pelo menos para o público menos acostumado aos esportes eletrônicos. Nem todo jogo de videogame é considerado eSport, ao passo que todo eSport é, necessariamente, um jogo de videogame. No caso de League of Legends, por exemplo, o modo de disputa mais popular acontece entre duas equipes de cinco jogadores, que representam heróis com a missão de destruir o time adversário e conquistar a sua base. A variedade de jogos considerados eSports, no entanto, vai muito além, desde simuladores de futebol como Fifa e PES, até jogos de tiro como Counter Strike (CS), Overwatch e PUBG, para ficarmos apenas em alguns dos mais conhecidos. A faixa etária, ainda que esteja quase sempre associada a jovens e adolescentes, na verdade também tem variações. Enquanto os praticantes de LoL tendem a estar na casa dos 20 anos, um jogo como Counter Strike reúne fãs um pouco mais velhos, já que sua base remonta ao início dos anos 2000 e à febre das lan houses.
A preparação para a final do CBLoL em Porto Alegre não deixa dúvidas sobre o profissionalismo com que tudo é tratado. A estrutura começou a ser montada no Araújo Viana com mais de uma semana de antecedência e envolveu pelo menos cem profissionais. Tudo porque o jogo em si é apenas a faceta mais visível de um espetáculo que conta com show musical de abertura e transmissão ao vivo, por plataformas de streaming, que não perde em nada em termos de qualidade de produção para os melhores programas da TV. Isso sem falar no esquema de segurança, digno de uma produção hollywoodiana. A Riot, empresa responsável tanto pelo jogo como pela competição, faz questão de transportar o próprio servidor para evitar todo e qualquer risco de invasão por parte de hackers, não esqueçamos, afinal, que estamos tratando de jogos baseados em computadores. Uma vez em Porto Alegre, o aparelho terá montada uma sala exclusiva para si dentro do auditório, com direito a mecânicas de jaula, seguranças e passe digital mais do que restrito. “Eu, por exemplo, nunca tive acesso. É um padrão da Riot no mundo inteiro”, revela Carlos Antunes, diretor de eSports da empresa.
É de se esperar que tudo isso custe dinheiro, e não pouco. Como o ingresso mais caro para a decisão saía por R$ 80,00 e a capacidade do Araújo Viana não chega a 4 mil pessoas, um cálculo absurdamente otimista apontaria para uma receita bruta de R$ 320 mil. Assim, é natural imaginar que lucro seja um tanto quanto complicado. Só que a aposta não é no curto prazo. “O investimento para as finais faz parte de uma estratégia maior. Divulgar o jogo, fortalecer a cena local e levar para uma outra cidade tem vários benefícios e, no final, faz muito sentido para a gente. Não precisa se pagar só com a receita”, explica Antunes. Não por acaso, a capital gaúcha foi escolhida para sediar a decisão em 2018. “Essa escolha faz parte de todo um plano. O Araújo Viana casa com o tipo de espetáculo que queríamos na entrada. E é importante levar para outros lugares que não São Paulo e Rio de Janeiro porque os jogadores são de várias cidades diferentes. Além disso, a torcida de Porto Alegre é uma das mais engajadas em participação, em acesso aos jogos”, completa o diretor da Riot.