Centenas de venezuelanos estão morando em barracas de camping e estruturas improvisadas com madeira, lona e tecido em ‘favelas’ que se multiplicam perto de abrigos para refugiados sem-teto em Boa Vista. Nos arredores de dois deles – o São Vicente e o Jardim Floresta – cerca de 600 pessoas vivem na rua à espera de vagas em meio à falta de comida, água e banheiros.
As instalações são precárias e a falta de utensílios faz praticamente tudo ser improvisado: latas e baldes de tinta viram panelas; cercas, árvores e calçadas ficam cobertas de roupas secando ao sol, como se fossem varal. À beira da rua, venezuelanos lavam roupas e outros fazem fogueiras para cozinhar.
Carlebis Navas, 35, a filha, o genro e os dois netos de 4 meses e 3 anos dividem uma única barraca de camping. Sem dinheiro e desempregados, eles moram na rua Uraricoera, a mesma do abrigo São Vicente, na zona Sul da cidade, há quase dois meses. A ocupação tem cerca de 300 pessoas.
“Vivi de aluguel aqui em Boa Vista quando tinha emprego. Fui demitida depois de passar um mês inteiro trabalhando. Meu patrão me mandou embora um dia depois de dizer que iria assinar minha carteira. Desde então, não consegui nenhum outro trabalho e estamos vivendo na rua porque não há mais vagas nos abrigos”, diz Carlebis.
Amamentando a filha bebê, Hillary Diaz, 20, conta que a família se alimenta graças a doações e usa banheiros emprestados. Não passam fome, mas na rua levam uma rotina que os adoece.
“Minha mãe [Carlebis], eu e minhas duas filhas pegamos uma gripe e tivemos quatro dias de febre”.
Caroline Freitez, 42, coordenadora informal da ocupação nos arredores do abrigo Jardim Floresta, diz que boa parte dos venezuelanos que estão no local desejam participar do processo de interiorização do governo federal. Um dos critérios para viajar, no entanto, é que os refugiados já estejam em abrigos.
“Na barraca as crianças sentem muito calor. É quente de dia e de noite. Não há como tomar banho. A vida aqui é muito difícil, mas ainda é melhor do que na Venezuela, porque [aqui] há comida”, descreve Carmen ao ser perguntada sobre os desafios que enfrenta ao viver na rua com os filhos de 3 e 1 ano.
Antes de ir para o acampamento, o casal e os filhos estavam em uma fazenda em Alto Alegre, no Norte do estado, mas ao fim de três meses de trabalho não receberam nenhum centavo e decidiram ir embora.
“Nos davam refeições, mas não um salário pelo nosso trabalho na fazenda. Se aproveitaram da nossa situação”, relata Denis.
A rotina precária e a expansão dos acampamentos divide os moradores de uma cidade onde antes quase não existiam pessoas em situação de rua.
“Como não há banheiros alguns fazem as necessidades na rua e fica um cheiro terrível, insuportável”, reclama a brasileira Laisa Pereira, 74, que mora próximo ao abrigo Jardim Floresta. “Vivo aqui há 30 anos e nunca tive tanta vontade de me mudar. Não me sinto mais segura para sair de casa sozinha”.
“O poder público tem a obrigação de criar mecanismos para resolver essa crise, mas nós seres humanos temos a obrigação e o dever como cristãos de ajudarmos o próximo”, diz Áurea Cruz, coordenadora do ‘Mexendo a Panela’, um grupo de 10 voluntários ligados à Igreja Nossa Senhora da Consolata, vizinha à ocupação no São Vicente.
Há dois anos o ‘Mexendo a Panela’ serve cafés da manhã e almoços aos refugiados. No começo eram 20 porções, hoje são 2 mil.
“Abrigos são abertos, algumas pessoas são levadas daqui, mas outras chegam todos os dias. Os venezuelanos estão aqui por comida, por desespero. É um problema social da cidade, do estado, de todos nós”, avalia Áurea.
Procurada, a Força-Tarefa Logística e Humanitária, que executa a operação Acolhida de recepção aos refugiados, informou que mais três abrigos com 1,5 mil vagas devem ser abertos em Roraima – dois deles ainda neste mês.
Na capital Boa Vista serão dois (Rondon 2 e 3) com capacidade para mil pessoas, e uma casa de passagem com 500 vagas em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela.
“Tanto o Rondon 2 quanto o BV8 [em Pacaraima] tem a previsão de inauguração para setembro”, detalhou a assessoria da operação, acrescentando que o cadastramento dos venezuelanos e a gestão dos abrigos ficam a cargo da Agência das Nações Unidas para refugiados (ACNUR) e das ONGs Fraternidade sem Fronteiras, Fraternidade-Federação Humanitária Internacional e Associação Voluntários para o serviço Internacional (AVSI).
Desde 2015, um número crescente de venezuelanos em fuga do regime do ditador Nicolás Maduro se muda para Roraima.
Segundo o IBGE, há 30,9 mil venezuelanos no Brasil – 99% em Roraima. Do total, aproximadamente 10 mil cruzaram a fronteira somente nos seis primeiros meses de 2018.
Apesar de já existirem 10 abrigos em Roraima com 5.046 moradores, ainda há, segundo levantamento da Força-Tarefa, mais de 2 mil venezuelanos em situação de rua em pelo menos 11 das 15 cidades do estado.