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O agro, o pop e o Papa ==> CLIQUE AQUI

15 de setembro de 2018
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Um dia desses liguei a televisão no maior canal aberto do país e me espantei com o programete que passou no intervalo comercial, em horário nobre. “Agro é pop”, disse o locutor, após apresentar números gigantescos e cheios de zeros que fazem qualquer telespectador saltar do sofá e desejar imediatamente começar uma lavoura.

Ao assistir o comercial do agronegócio “pop”, não pude deixar de constatar, preliminarmente, que a grande mídia nacional aparentemente descobriu o poder do agronegócio tão somente após o Brasil quebrar financeiramente. Desde pequenos aprendemos nos bancos escolares que são os polos metais mecânicos a salvação da economia, o grande desejo das lideranças regionais e o sonho de todos os trabalhadores ociosos. Mas agora, após a indústria nacional recuar mês a mês sua participação no Produto Interno Bruto nacional (PIB), o agro que é “pop”.

Mas foi esse termo – o “pop” – que me fez refletir. Isto porque cresci nos anos 90 e, como todo brasileiro daquela época, ouvia no rádio o dia inteiro que o Papa, esse sim, era pop. “O Papa é pop, o pop não poupa ninguém”, martelava a canção diuturnamente, criando um bordão nacional até hoje vigente.

Em razão disto, dizer que algo é “pop” soa como um elogio neste país tropical, já que a expressão obrigatoriamente nos vincula à figura do Papa. E, ao analisar essa equiparação do agro com o Papa pelo programete da televisão (afinal, ambos são “pop”), confesso que fiquei otimista. Ora, o Papa é um líder querido e respeitado mundialmente. Seria o agro também o novo querido das multidões? E foi aí que comecei a fazer uma análise mais detalhada, que pouco a pouco me entristeceu.

O Papa, por onde anda, vê ruas limpas e bem cuidadas. Os países se enfeitam para receber o líder religioso. Já o agro, quando se movimenta ao transportar suas riquezas aos portos e aos mercados, vê rodovias esburacadas, vias rurais mal cuidadas, pedágios caros, combustíveis a preços proibitivos e ferrovias sucateadas. Não raro enfrenta pedágios ilegais, para completar a via crucis da produção.

Economicamente, o Papa não tem instabilidade. Nunca se ouviu falar em crise financeira no Vaticano. Já o agro tem na instabilidade econômica sua regra. E não estamos falando da instabilidade decorrente das variações climáticas. Tradicionalmente, o agronegócio sofre grandes perdas financeiras em razão de decisões político-econômicas ruins. Quer arruinar o dia de um produtor, converse com ele sobre planos econômicos. Estamos em 2017 e muitos produtores brasileiros ainda não conseguiram ser ressarcidos dos prejuízos do desastroso Plano Collor, que fez com que muitos deles tivessem que vender grande parte ou mesmo todo o seu patrimônio para quitar suas dívidas. E isso foi em 1990.

Falando em interferências políticas, não podemos deixar de citar que o Papa possui um excelente relacionamento com os governos, sendo respeitado por onde quer que vá. Mas parece que o governo brasileiro não tem assim tanta admiração pelo agronegócio, ainda que este represente aproximadamente ¼ do PIB nacional e seja possivelmente o único setor em que novos postos de trabalho foram criados nesses anos de crise. Exemplificam esse relacionamento pouco amoroso situações como os regimes tributários absurdos aplicados ao agronegócio, as curiosas facilitações de importação de produtos que já são produzidos internamente, as dificuldades de acesso ao crédito e seguro rural, entre tantos outros problemas vivenciados pelo produtor no dia a dia. Evidentemente não tenho como deixar de citar também o hodierno julgamento, pelo STF, acerca da constitucionalidade do Funrural. Esta foi a mais recente desavença nessa já conturbada relação; não necessariamente a última.

Pensando em todas essas questões, concluí que, nesse país, o Papa pode ser considerado “pop”, mas o agro lamentavelmente não. Em verdade, o setor é visto mais como o “anjo caído” do que qualquer outra coisa. Portanto, a nós, que trabalhamos direta ou indiretamente com o agronegócio, resta rejeitar o nefasto rótulo e continuar com nossa vocação: trabalhar, dia após dia, de sol a sol. Se alguém pode fazer algo por este país, que sejamos nós, agora. O futuro nos recompensará.

Porque o “pop”, esse não poupa ninguém.

Francisco Torma, advogado.

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