O superalimento que está mudando a vida dos agricultores no Peru – NoroesteOnline.com

O superalimento que está mudando a vida dos agricultores no Peru

28 de agosto de 2018
Compartilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Desde que se espalhou mundialmente a fama da quinoa como um alimento que contribui para a vida saudável, agricultores peruanos se veem diante de uma situação paradoxal. Por um lado, o sucesso do grão melhorou a vida de quem o cultiva, mas, por outro, trouxe a ameaça da crescente concorrência internacional.

A história de Rodrigo Cisneros mostra a rápida transformação que a quinoa provocou no país. Há cinco anos, ele tinha um pequeno pedaço de terra onde cultivava alimentos, a maioria deles para o sustento da própria família. De vez em quando, vendia pequenas quantidades de batatas na cidade mais próxima.

Hoje, Cisneros uma cor amarela e brilhante ocupa seus campos ao longo das ladeiras dos Andes. Graças à popularidade mundial da quinoa como “superalimento”, Cisneros e os dois irmãos são donos de mais de 20 hectares de terra e empregam 15 pessoas.

“Meus antepassados, meus avôs e meus pais sempre cultivaram quinoa. Cresci comendo, mas nunca havíamos vendido”, conta.

Qualidades da quinoa

Com o dinheiro da quinoa, Cisneros conseguiu mandar a filha para fazer faculdade em Lima, capital peruana. Também conseguiu, por meio de uma placa solar, levar eletricidade pela primeira vez para casa.

O genoma da quinoa foi mapeado e o grão já está sendo plantado em outros países (Foto: BBC)

Agora, ele assiste a jogos de futebol na televisão e utiliza a luz para ler livros de autoajuda à noite.

“As pessoas não são bobas”, diz ele.

A quinoa é rica em proteínas, não tem glúten e é um alimento com baixo teor calórico.

“É um superalimento? As pessoas não pagariam um bom dinheiro pela quinoa se não fosse”, diz o produtor peruano. “As batatas fritas e o frango às vezes podem causar dor de estômago, mas a quinoa, não. Ela é fácil de digerir”, completa.

Aumento dos preços

O preço da quinoa no Peru aumentou mais de 500% entre 2005 e 2014, enquanto a produção cresceu de 32,5 mil toneladas para 114,7 mil toneladas no mesmo período, conforme as estatísticas do Ministério da Agricultura peruano.

O sucesso da quinoa também mudou a vida do casal Fredy Bautista e Yudy Cisneros, cuja plantação saltou de 1 hectare para 12 hectares em seis anos.

“Agora, podemos dar educação aos nossos filhos e compramos uma casinha”, disse Yudy. O casal ainda não tem eletricidade. Usam velas e querosene para iluminar a casa.

“Acordamos cedo e levantamos ainda quando está escuro. É o que o pessoal do campo sempre fez”, diz Fredy.

Os dois também cresceram comendo quinoa. “Nossos filhos comem quinoa no café da manhã com leite, açúcar e cravo. No almoço, faço sopa com legumes e carne, coentro e salsinha”, conta Yudy.

Melhor qualidade de vida

Todos os agricultores que plantam quinoa são membros de uma associação de produtores. Fredy Bautista diz que atuar de forma associada ajudou a aproveitar melhor a alta dos preços.

Jonathan Contreras é o secretário comercial da associação e diz que é difícil para os pequenos produtores rurais negociar um preço com os comerciantes e intermediários de maneira individual.

“Quando nos unimos, foi possível exportar”, destaca Contreras. A maioria dos agricultores peruanos que cultivam quinoa são donos de pequenos pedaços de terra.

Cerca de 72% dos produtores de quinoa no Peru têm menos de cinco hectares e, ainda assim, é nessas terras onde se cultiva 38% do grão produzido em território peruano, de acordo com o Ministério da Agricultura.

Jonathan Contreras observa que as cooperativas de produtores ajudam os plantadores de quinoa a conseguir melhores preços (Foto: BBC)

John Bliek, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), diz que a maioria dos pequenos agricultores não ficaram ricos e não puderam aproveitar o auge da quinoa no país.

Nos altiplanos, muitos agricultores são analfabetos, o Estado não está presente e há muita migração para as cidades. Mas Bliek diz que os agricultores que formaram cooperativas viram melhorias na qualidade de vida.

“Juntos, podem começar a produzir em maior escala, aumentar a produtividade, ter acesso a mercados estrangeiros e conseguir melhores preços para as safras”, completa.

No entanto, os agricultores peruanos agora enfrentam outro problema: o preço da quinoa caiu em 75% desde 2014, já que países como os EUA, Canadá e Argentina também passaram a produzir o grão.

O Peru continua sendo o maior produtor de quinoa e responde por quase metade da oferta mundial. A vizinha Bolívia é o segundo maior produtor, plantando um pouco mais de um terço da quinoa comercializada.

A planta é originária dos Andes e prospera há anos no alto da cordilheira. Em 2017, foi feito estudo do genoma da quinoa e atualmente experimentos com variedades distintas da planta estão sendo feitos para avaliar se ela é capaz de crescer satisfatoriamente em diferentes climas da África, Ásia e Europa.

Herança cultural

Ainda assim, Bliek diz que os produtores peruanos levam vantagem sobre os competidores, porque a quinoa “é um produto peruano que tem fortes raízes culturais”.

“Há uma história que diz que há 3 mil ou 5 mil anos, as estrelas presentearam a quinoa aos indígenas aymaras. Essas raízes culturais deram aos agricultores locais enormes benefícios sobre as pessoas que tentam copiá-los”, argumenta Bliek.

Para o integrante da OIT, ainda que exista a ameaça de que os preços podem cair com o aumento da produção em outros países, há a possibilidade de que outros mercados passem a consumir o grão, o que poderia ajudar os peruanos.

Fonte: G1

Vestibular de Verão 2019 UNIJUÍ

9 de outubro de 2018
Copyrights 2018 ® - Todos os direitos reservados
Skip to content